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Estilista de Cubatão leva referências da cidade para desfile de moda em São Paulo

G1

A moda brasileira tem se consolidado cada vez mais como uma ferramenta potente de resgate histórico e afirmação de identidade regional. Um exemplo recente e emblemático desse movimento ocorreu na última terça-feira (15), quando o estilista Guilherme Amorim, de 35 anos, transformou a passarela do Complexo Cultural Oswald de Andrade, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, em um palco de homenagem às suas raízes em Cubatão. O desfile, que integra a trajetória de sua marca autoral, não foi apenas uma apresentação de vestuário, mas uma narrativa visual que costura a história, as tragédias e a recuperação ambiental de uma das cidades mais icônicas da Baixada Santista.

Nascido e criado na região, Amorim utilizou sua voz criativa para subverter estereótipos associados a Cubatão, muitas vezes reduzida ao seu polo industrial. Em vez disso, o designer buscou na literatura local e nos símbolos da fauna e da memória coletiva os elementos necessários para compor uma coleção que dialoga com o passado e vislumbra um futuro distópico. O resultado é um trabalho que transcende a estética, convidando o público a um mergulho profundo na identidade paulista através de um olhar periférico e sofisticado.

Literatura e distopia: o Cubatão de 2028

O ponto de partida criativo para a coleção foi a obra “Zanzalá”, escrita em 1928 por Afonso Schmidt, um dos mais importantes intelectuais cubatenses. O livro, considerado uma das primeiras incursões da literatura brasileira no gênero utópico e futurista, projeta a cidade de Cubatão cem anos à frente de seu tempo, em 2028. Na trama de Schmidt, a cidade se transforma em uma sociedade tecnológica e organizada, onde a busca pela cura de uma doença terminal move os protagonistas Zéfiro e Tuca.

Guilherme Amorim reinterpretou essa visão futurista em suas peças, trazendo para a passarela personagens que representam a arte, a sensibilidade e o heroísmo romântico descritos na obra. A bailarina Tuca e o jovem Zéfiro ganharam formas contemporâneas através de tecidos e cortes que remetem a essa mistura entre a natureza pujante da Serra do Mar e a tecnologia imaginada por Schmidt há quase um século. Ao utilizar essa referência, o estilista não apenas celebra a produção intelectual de sua terra natal, mas também reforça a ideia de que o futuro pode ser construído a partir da valorização da própria história.

Símbolos de resistência e memória: do Guará-vermelho à Vila Socó

Um dos momentos mais impactantes do desfile foi a utilização de símbolos que carregam um peso emocional e histórico significativo para os moradores da Baixada Santista. O guará-vermelho, ave que se tornou o símbolo da recuperação ambiental de Cubatão após décadas de combate à poluição, apareceu como um emblema de renascimento. A presença do animal nas peças simboliza a transição da cidade, que deixou de ser o “Vale da Morte” para se tornar um exemplo de resiliência ecológica.

Por outro lado, a coleção também não se furtou de abordar as cicatrizes do município. A figura do “pássaro-socó” foi utilizada por Amorim como uma alusão direta ao incêndio da Vila Socó, ocorrido em 1984, uma das maiores tragédias humanas e ambientais do Brasil. Para o estilista, incluir essa referência é uma forma de manter viva a memória das vítimas e incentivar a pesquisa histórica. Segundo ele, é essencial que as novas gerações conheçam esses episódios para compreenderem a formação social e as lutas da comunidade cubatense.

Trajetória: da Estação das Artes ao topo da moda nacional

A jornada de Guilherme Amorim na moda começou de forma humilde, em cursos gratuitos oferecidos pela Estação das Artes, em Cubatão. Foi nesse espaço público que ele descobriu o talento para o desenho e vislumbrou a possibilidade de transformar a criatividade em profissão. Após cursar Design de Moda e se mudar para a capital paulista, o estilista enfrentou os desafios comuns a jovens artistas que buscam espaço em um mercado muitas vezes elitizado.

Hoje, com uma marca consolidada há cerca de dez anos e participações recorrentes na Casa de Criadores — o principal evento de moda autoral e novos talentos do país —, Amorim já atingiu patamares elevados. Suas criações já vestiram grandes nomes da música brasileira, como Anitta, Ludmilla, Marina Sena e Luísa Sonza, em clipes e apresentações. No entanto, ele afirma que o sucesso comercial não o afasta de seu propósito original: mostrar que o talento periférico tem valor e potência para ocupar qualquer espaço.

O papel social da moda autoral

Para além da estética das passarelas, o desfile de Guilherme Amorim carrega uma mensagem de incentivo e transformação social. Ao levar Cubatão para o centro do debate fashion em São Paulo, o estilista busca inspirar jovens que, assim como ele, cresceram em cidades industriais ou fora dos grandes eixos de produção cultural. Ele acredita que a moda é um veículo de comunicação capaz de elevar a autoestima de uma população e reivindicar narrativas que muitas vezes são ignoradas pela mídia tradicional.

A iniciativa coincide com um momento de revitalização urbana e cultural pela qual o município de Cubatão vem passando, buscando diversificar sua economia e fortalecer sua identidade além das chaminés das fábricas. Através do trabalho de Amorim, a cidade reafirma sua vocação artística e sua capacidade de produzir conteúdo de relevância nacional, provando que a moda, quando feita com profundidade e propósito, é uma das formas mais bonitas de se contar a história de um povo.

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Fonte: https://g1.globo.com

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