O Produto Interno Bruto (PIB) é, tradicionalmente, o termômetro que mede a força da economia de um país. No entanto, para que esse indicador reflita a realidade com precisão, ele precisa ir além das atividades registradas em cartório ou notas fiscais. Seguindo essa lógica técnica, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que está preparando a inclusão de estimativas sobre a comercialização de drogas ilícitas nas estatísticas nacionais. A medida, que faz parte de uma revisão estrutural profunda, tem previsão para apresentar seus primeiros resultados oficiais em 2028.
A iniciativa pode causar estranheza à primeira vista, mas é fundamentada em diretrizes internacionais rigorosas. O objetivo central não é validar ou legitimar o tráfico de entorpecentes, mas sim evitar que uma parcela significativa da circulação de riqueza no país fique invisível para os formuladores de políticas econômicas. Quando o dinheiro muda de mãos em uma transação voluntária — mesmo que o produto seja proibido — ele gera impactos diretos no consumo das famílias e na circulação de capital, afetando o equilíbrio das contas nacionais.
Por que incluir atividades ilegais nas contas nacionais?
O critério utilizado pelo IBGE e por órgãos estatísticos globais não é moral ou jurídico, mas puramente econômico. Segundo o Sistema de Contas Nacionais (SCN), se existe uma transação comercial em que comprador e vendedor concordam com a troca, essa atividade possui um valor de mercado. Ao ignorar o mercado de drogas, o instituto acaba gerando distorções em outros indicadores sensíveis, como a taxa de poupança das famílias.
Imagine, por exemplo, um cenário onde uma família gasta parte de sua renda com produtos ilícitos. Se esse gasto não for contabilizado pelo IBGE, os dados sugerem que aquele montante de dinheiro permaneceu guardado ou investido, quando, na verdade, ele saiu de circulação para o consumo. Essa lacuna cria uma falsa percepção de riqueza acumulada, prejudicando o planejamento governamental e a análise da saúde financeira da população. Ao trazer esses números para a luz, o IBGE busca uma coerência matemática entre o que é produzido, o que é ganho e o que é efetivamente gasto no território brasileiro.
O espelhamento em modelos internacionais
O Brasil não está sozinho nessa transição metodológica. O IBGE segue recomendações de manuais internacionais de prestígio, como o <i>System of National Accounts</i> (SNA), publicado pela ONU, e guias específicos sobre estatísticas de atividades ilícitas. Na Europa, a prática já é consolidada. Países como Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Itália e Espanha já incorporam o mercado de drogas e outras atividades informais ou ilegais em seus PIBs há cerca de uma década.
No caso do Reino Unido, a inclusão ocorreu em 2014, revelando que a economia paralela tinha um peso considerável no crescimento do país. A adoção desses padrões globais permite que o PIB brasileiro seja comparado de forma mais justa com o de outras nações desenvolvidas, que já operam sob essas mesmas regras de transparência estatística.
A metodologia: como medir o que acontece nas sombras?
Calcular o tamanho de um mercado que opera na clandestinidade é um dos maiores desafios para os estatísticos. O IBGE esclareceu que o cálculo não será baseado meramente no volume de drogas apreendidas pelas forças de segurança, já que as apreensões representam apenas uma fração desconhecida do total. A estratégia será focar na demanda, ou seja, no perfil de consumo do brasileiro.
O cálculo básico estruturado pelo instituto cruzará três variáveis principais: o número estimado de usuários de diferentes substâncias, a quantidade média consumida por cada um e o preço médio de venda praticado no varejo ilegal. A partir dessa base, o IBGE precisará diferenciar o que é produzido internamente do que é importado ilegalmente, descontando os custos de logística e insumos para chegar ao chamado Valor Adicionado Bruto (VAB).
Drogas, prostituição e contrabando
Embora o foco atual das divulgações seja o mercado de drogas, os manuais internacionais sugerem a inclusão de outras frentes, como a prostituição e o contrabando. Questionado sobre a abrangência total da nova metodologia, o IBGE ainda não detalhou se essas outras atividades entrarão simultaneamente no cálculo em 2028 ou se o cronograma será fatiado. O que se sabe é que o processo de testes começou em 2019, com simulações realizadas em 2021, demonstrando que o órgão está em uma fase avançada de maturação técnica sobre o tema.
O impacto para a sociedade e os próximos passos
A inclusão desses dados deve gerar debates acalorados na esfera pública e política. No entanto, para especialistas, a transparência é o primeiro passo para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes. Compreender o volume financeiro movimentado pelo tráfico permite uma análise mais profunda sobre segurança pública, saúde e desigualdade social, além de fornecer um retrato fiel de como o dinheiro circula nas periferias e centros urbanos.
Até 2028, o IBGE continuará refinando suas fontes de dados, que podem incluir pesquisas de saúde, levantamentos domiciliares e estudos acadêmicos para garantir que a estimativa seja a mais próxima possível da realidade. A mudança marca uma evolução na maturidade das estatísticas brasileiras, alinhando o país aos mais altos padrões de rigor analítico mundial.
Acompanhar as mudanças na forma como o Brasil mede sua riqueza é essencial para compreender os rumos da nossa economia e sociedade. No Impacto1 Jornal, seguimos comprometidos em trazer análises aprofundadas e informações precisas sobre os temas que moldam o futuro do país. Continue conosco para manter-se atualizado com jornalismo de qualidade e contexto real sobre os fatos mais relevantes do dia a dia.
Fonte: https://g1.globo.com