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‘Não tinha como sobreviver’: seca severa mata animais e devasta a renda de famílias no Sertão de Sergipe

G1

O cenário no Sertão de Sergipe é de desolação e urgência. A estiagem prolongada, que já castiga a região há meses, forçou o reconhecimento de situação de emergência em 11 municípios do estado. Para além dos números oficiais e dos decretos governamentais, a crise revela uma face humana cruel: produtores rurais que assistem, impotentes, à morte de seus rebanhos e ao esgotamento de suas fontes de sustento. Sem pasto verde e com os reservatórios de água reduzidos a lama, a sobrevivência no campo tornou-se um desafio diário contra o tempo e o clima.

A crise hídrica atinge diretamente a espinha dorsal da economia local: a pecuária leiteira. Em cidades como Poço Redondo, um dos epicentros da seca, o ciclo de produção foi interrompido de forma drástica. Sem alimento adequado, as vacas perdem peso rapidamente, a produção de leite despenca e, em muitos casos, os animais simplesmente não resistem à fraqueza. O prejuízo não é apenas financeiro; é a perda de anos de investimento e de uma estrutura familiar moldada em torno do cuidado com a terra e com os animais.

O dilema dos produtores: vender o sustento ou ver o rebanho morrer

Para muitos pequenos produtores, a única saída para evitar um prejuízo total tem sido o desapego forçado. O criador Cleiton Feitosa vive essa realidade de perto. Após perder toda a sua lavoura de milho, que serviria de alimento para o gado, ele se viu diante de um mercado de insumos inflacionado. Com o preço da ração atingindo patamares proibitivos e sem pastagem natural, Cleiton tomou a difícil decisão de vender 16 de suas 20 vacas. A estratégia, embora dolorosa, foi a única forma de garantir que os quatro animais restantes tivessem o que comer por mais algum tempo.

A situação é ainda mais drástica para Genildo dos Santos. Ele precisou abrir mão de todo o seu rebanho — 26 vacas leiteiras que eram a base financeira de sua família. Hoje, o curral vazio é o símbolo de uma rotina que mudou da noite para o dia. Sem a renda do leite, a família de Genildo passou a depender exclusivamente de benefícios sociais. 'Não tinha como a gente sobreviver. Não tinha dinheiro nem para a gente, nem para elas. A gente ficou com o coração magoado', desabafou o produtor, evidenciando o impacto emocional de perder o patrimônio de uma vida inteira.

Cenários de morte e a resistência da palma

A paisagem do sertão sergipano está pontuada por carcaças e animais extremamente debilitados. José Valmir Gomes, outro criador da região, já contabiliza a perda de quatro animais. Ele relata o episódio de uma vaca que, após uma tentativa frustrada de voltar para o curral, deitou-se para não mais levantar. O animal estava prenha, e o feto também não sobreviveu. As imagens de ossos e restos mortais no chão batido tornaram-se comuns, ilustrando a gravidade de uma seca que não perdoa sequer os animais em fase de reprodução.

Atualmente, a palma forrageira é o último recurso que mantém o que restou do gado em pé. No entanto, até esse recurso está com os dias contados. De acordo com os criadores, o estoque de palma disponível deve durar, no máximo, mais um mês. Se as chuvas não chegarem nesse intervalo, a tendência é que o colapso da produção leiteira na região se aprofunde, deixando centenas de outras famílias sem alternativa de renda.

Impacto social e a necessidade de políticas públicas

A seca em Sergipe não é um fenômeno isolado, mas faz parte de um ciclo climático que exige soluções estruturantes. O reconhecimento da situação de emergência permite que os municípios acessem recursos federais e estaduais com maior agilidade, facilitando o envio de carros-pipa e a distribuição de cestas básicas. Contudo, para os produtores locais, a ajuda imediata é apenas um paliativo. Eles clamam por infraestrutura que permita o armazenamento de água a longo prazo e por subsídios que tornem a ração animal acessível durante os períodos críticos.

Enquanto o céu permanece sem nuvens, a fé e a resiliência são os únicos ativos que restam ao sertanejo. 'É pedir sorte a Deus que chova e as coisas voltem ao normal como era', afirma José Valmir. A frase sintetiza o sentimento de uma população que, historicamente habituada à dureza do semiárido, encontra-se agora em um limite perigoso de vulnerabilidade social e econômica.

Acompanhar os desdobramentos da crise climática e os seus impactos na vida real é fundamental para compreender os desafios do nosso país. No Impacto1 Jornal, mantemos o compromisso de trazer a informação com profundidade, humanidade e o contexto que você precisa para formar sua opinião. Continue acompanhando nossa cobertura sobre os efeitos da seca no Nordeste e outros temas relevantes para o dia a dia do brasileiro.

Fonte: https://g1.globo.com

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