Em um cenário político marcado por denúncias de corrupção, disputas personalistas e a onipresença de escândalos no noticiário, o debate sobre o futuro estrutural do Brasil parece ter sido empurrado para as margens. Enquanto o país se aproxima de definições eleitorais decisivas, temas como a transição energética, a soberania tecnológica e o enfrentamento de crises climáticas e sanitárias enfrentam um preocupante vácuo de propostas. O alerta parte de uma das vozes mais respeitadas da academia nacional: Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Para a pesquisadora, o atual ciclo eleitoral está sendo tragado por uma agenda que ignora os desafios estratégicos de curto e médio prazo. Em vez de discutir como o Brasil lidará com o rápido envelhecimento de sua população ou como poderá se tornar um protagonista global no processamento de minerais críticos — essenciais para a indústria de alta tecnologia —, as candidaturas têm se concentrado em ataques mútuos e na gestão de crises institucionais imediatas. O resultado é um eleitorado desinformado sobre projetos que, de fato, determinarão a qualidade de vida nas próximas décadas.
A falsa dicotomia entre integridade e desenvolvimento
Um dos pontos centrais da crítica de Francilene Garcia é a percepção de que o país foi induzido a uma escolha artificial. Segundo a doutora em engenharia elétrica e professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), criou-se a ideia de que é impossível discutir a integridade das instituições e, ao mesmo tempo, planejar um projeto nacional de desenvolvimento. Para a SBPC, essas duas pautas não são excludentes; pelo contrário, são faces da mesma moeda.
“O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda”, afirmou Garcia em entrevista à Agência Brasil. Essa fragmentação do discurso impede que temas complexos, que exigem continuidade e orçamento previsível, ganhem tração. A ciência, que por natureza depende de estabilidade para gerar resultados, acaba sendo a primeira vítima desse esvaziamento intelectual das campanhas.
Omissão em temas estratégicos: minerais críticos e energia
O Brasil detém algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos, como as chamadas terras raras, fundamentais para a fabricação de componentes eletrônicos, baterias de carros elétricos e tecnologias de defesa. No entanto, o debate sobre como o país deixará de ser apenas um exportador de minério bruto para se tornar um processador de alta tecnologia está praticamente ausente dos palanques. Sem uma política científica clara, o Brasil corre o risco de perder a janela de oportunidade da transição energética global.
Além da questão mineral, a transição energética — vista pelo resto do mundo como o pilar da nova economia — é tratada de forma periférica. Enquanto potências globais redesenham suas matrizes industriais com foco em sustentabilidade e eficiência, o debate eleitoral brasileiro ainda patina em discussões superficiais, sem apresentar metas concretas de investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) que garantam competitividade ao setor produtivo nacional.
Lições esquecidas da pandemia e das catástrofes climáticas
A história recente forneceu avisos severos sobre a importância do investimento científico. A pandemia de Covid-19 em 2020 e as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024 demonstraram que a ciência é a única ferramenta capaz de oferecer respostas rápidas e baseadas em dados para crises de grande magnitude. No entanto, o engajamento político com a prevenção parece ser reativo e efêmero.
Francilene Garcia observa que, embora a temática tenha ganhado peso em momentos de tragédia, ela volta a ser ignorada assim que a crise imediata arrefece. O risco de novas crises sanitárias e o impacto do novo regime climático nas cidades brasileiras exigem um planejamento de Estado que transcenda mandatos, algo que a SBPC busca pautar por meio do Observatório das Eleições, que já lançou mais de cem propostas voltadas para políticas públicas de ciência e tecnologia.
O baixo engajamento das candidaturas
Os dados de adesão ao Observatório das Eleições refletem o desinteresse da classe política. Até o momento, das centenas de candidaturas em todo o país, apenas uma de âmbito Executivo federal e nenhuma de âmbito estadual demonstraram engajamento direto com as propostas da SBPC. Esse distanciamento sinaliza um divórcio perigoso entre quem aspira governar e a base de conhecimento necessária para uma gestão eficiente.
A ausência da ciência no debate não afeta apenas os pesquisadores, mas impacta diretamente a economia e os serviços públicos. O processo de transformação digital e o envelhecimento populacional, por exemplo, pressionam os sistemas de saúde e previdência. Sem soluções tecnológicas e inovação em gestão, o custo social e econômico desses fenômenos será significativamente maior para as futuras gerações.
Para a SBPC, é urgente que os eleitores exijam mais do que promessas genéricas ou defesas de integridade institucional. É necessário que o projeto de nação inclua, obrigatoriamente, um compromisso com a ciência, a tecnologia e a inovação como motores de desenvolvimento social. O futuro do Brasil não será construído apenas com a superação de escândalos, mas com a capacidade do país de produzir conhecimento e aplicá-lo em benefício de sua população.
Acompanhar o desenrolar dessas discussões e entender como elas impactam o seu dia a dia é fundamental para um voto consciente. No Impacto1 Jornal, mantemos nosso compromisso de trazer informações aprofundadas e análises contextuais sobre os temas que realmente importam para o desenvolvimento do país. Continue acompanhando nossa cobertura para entender os bastidores da política e os avanços da ciência brasileira.