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Salário não dá mais conta? Por que cada vez mais trabalhadores buscam um segundo emprego nos EUA

G1

Durante décadas, a imagem do mercado de trabalho dos Estados Unidos foi associada à estabilidade de uma carreira única, capaz de sustentar uma família, pagar uma hipoteca e garantir uma aposentadoria tranquila. No entanto, esse cenário está sofrendo uma transformação profunda e silenciosa. O tradicional 'American Dream' (Sonho Americano) está sendo substituído por uma rotina de múltiplas jornadas, onde um único salário já não parece ser suficiente para cobrir o custo de vida básico. O fenômeno, que já é uma realidade amarga em diversos países em desenvolvimento, agora se consolida como uma necessidade estrutural na maior economia do mundo.

Uma pesquisa recente conduzida pela Goldman Sachs Asset Management acendeu um alerta sobre essa nova dinâmica social. O estudo, que ouviu 5.106 trabalhadores e aposentados norte-americanos, revelou que mais de 60% dos entrevistados já recorreram a bicos, trabalhos paralelos ou o chamado 'side hustle' para complementar a renda. O que antes era visto como uma forma de juntar dinheiro para uma viagem ou um luxo ocasional, transformou-se em uma estratégia de sobrevivência financeira para manter as contas em dia.

O peso do custo de vida e a quebra de paradigmas

O principal motor desse movimento não é a falta de disposição para o trabalho, mas sim o encarecimento acelerado de itens fundamentais. Nas últimas duas décadas, as despesas essenciais passaram a consumir uma fatia desproporcional do orçamento doméstico. De acordo com os dados da pesquisa, em 2000, o custo médio da casa própria representava cerca de 33% da renda familiar. Até 2026, as projeções indicam que esse percentual subirá para impressionantes 54%, quebrando a regra histórica de que a moradia não deve ultrapassar um terço dos ganhos mensais.

Esse aumento não se restringe apenas ao setor imobiliário. O custo de vida está sendo pressionado por todos os lados: os aluguéis subiram de 21% para 26% da renda média, os gastos com creche saltaram de 12% para 19% e o ensino superior — pilar da mobilidade social nos EUA — tornou-se um fardo quase insustentável. Nas universidades públicas, o comprometimento da renda passou de 25% para 38%, enquanto nas instituições privadas esse valor atinge 89% da renda familiar, criando um ciclo de endividamento estudantil que persegue os profissionais por anos.

Gerações sob pressão: Gen Z e Millennials na linha de frente

Embora a necessidade de renda extra atinja diversas faixas etárias, os mais jovens são os mais afetados. Entre os integrantes da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), 80% afirmam já ter recorrido a uma segunda fonte de renda. O cenário é muito semelhante para os Millennials (nascidos entre 1981 e 1996), com 77% de adesão aos trabalhos paralelos. Para esses grupos, a sensação de insegurança financeira é onipresente: mesmo com empregos fixos, a barreira para comprar o primeiro imóvel ou formar patrimônio parece cada vez mais alta.

Curiosamente, o estudo da Goldman Sachs identificou que a preocupação financeira não é exclusividade das classes mais baixas. Existe uma espécie de curva em 'U' na percepção de segurança: as angústias são elevadas entre quem ganha menos de US$ 100 mil anuais, estabilizam-se na classe média alta, mas voltam a crescer entre aqueles com rendimentos superiores a US$ 300 mil (cerca de R$ 1,65 milhão). Para os mais ricos, o medo está na manutenção do padrão de vida e na capacidade de sustentar o consumo após a aposentadoria, evidenciando que a inflação de estilo de vida e o custo dos serviços de alto padrão também geram pressão psicológica.

O custo invisível: saúde mental e produtividade

Trabalhar em dois ou três empregos resolve o problema imediato do caixa, mas cria um efeito colateral preocupante na saúde e na produtividade nacional. Segundo a pesquisa, 53% dos trabalhadores admitem que as preocupações financeiras prejudicam diretamente a concentração durante o expediente no emprego principal. Além disso, cerca de 31% dos entrevistados afirmaram ter faltado ao trabalho no último ano devido a problemas financeiros ou ao estresse decorrente deles.

Essa sobrecarga gera um ciclo vicioso: o trabalhador, cansado e desatento, perde chances de promoção ou qualificação profissional, o que o mantém dependente dos bicos para fechar o mês. A 'era do adiamento' é outra consequência direta desse cenário. Cerca de 70% dos americanos declararam ter adiado metas importantes, como casar, ter filhos ou comprar uma casa, por falta de fôlego financeiro. Entre a Geração Z, esse índice sobe para 83%, o que pode ter impactos demográficos e econômicos profundos nas próximas décadas.

Perspectivas e desdobramentos

Os dados sugerem que a discussão sobre economia precisa ir além das taxas de desemprego. Estar empregado já não é sinônimo de prosperidade. O mercado de trabalho está diante de um novo desafio: a retenção de talentos. Com 34% dos profissionais (e quase metade dos mais jovens) planejando buscar novos empregos para melhorar sua situação financeira, as empresas enfrentam uma rotatividade crescente que encarece processos e diminui a eficiência.

A realidade norte-americana serve como um espelho para tendências globais. A necessidade de múltiplas fontes de renda reflete um mundo onde o custo da infraestrutura básica de vida cresce em ritmo superior aos ganhos salariais. Para o trabalhador, o desafio é encontrar o equilíbrio entre a subsistência financeira e a preservação da própria saúde física e mental em um ambiente cada vez mais exigente.

No Impacto1 Jornal, acompanhamos de perto as transformações que moldam a economia global e o mercado de trabalho, trazendo análises que conectam os grandes números à vida real. Continue acompanhando nossas reportagens para entender como as mudanças no cenário internacional refletem no seu dia a dia e na economia brasileira. Informação de qualidade é a melhor ferramenta para planejar o seu futuro financeiro.

Fonte: https://g1.globo.com

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