O estrépito dos fogos de artifício e os gritos de comemoração que ecoaram pelas ruas de Piraporinha, no extremo sul de São Paulo, na noite de domingo, não foram apenas uma celebração isolada, mas o reflexo de um comportamento eleitoral que se consolida a cada pleito. Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) encerrava a apuração, o bairro confirmava sua posição como o maior reduto de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na capital paulista. Com uma votação expressiva de 67,01% dos votos válidos, a região transformou o resultado das urnas em uma festa popular que ocupou calçadas e bares, evidenciando a profunda conexão política da periferia com o projeto petista.
A vitória sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), que obteve 32,99% dos votos na região, reforça uma tendência que já havia se desenhado no primeiro turno, quando Lula alcançou 57,57%. No entanto, o crescimento da margem de votos no segundo turno aponta para uma mobilização local que vai além da simples preferência partidária, tocando em questões de identidade de classe, representatividade e expectativas econômicas que moldam a vida de quem vive longe dos centros financeiros da metrópole.
O coração do voto progressista na capital
A hegemonia lulista em Piraporinha não é um fenômeno inédito. Já nas eleições de 2022, o bairro havia se destacado como o ponto de maior concentração de votos para o PT na cidade. Quatro anos depois, o cenário se repete com uma intensidade ainda maior. Para entender essa fidelidade eleitoral, é preciso olhar para a estrutura social da Zona Sul de São Paulo, uma região marcada por grandes desafios infraestruturais, mas também por uma rede de solidariedade e consciência política muito ativa.
Para muitos moradores, o voto em Lula é visto como um mecanismo de proteção social. O aposentado Pedro Ferreira Lima, que acompanhou a apuração com o rádio à mão e certa ansiedade, sintetiza o sentimento de alívio que tomou conta das ruas. "Houve bastante movimentação, bastante comemoração. Todo mundo gostou aqui do bairro", relatou. Pedro, que viveu diferentes ciclos políticos no Brasil, projeta no novo mandato a esperança de um governo que supere as entregas anteriores, focando especialmente na manutenção do poder de compra e na assistência aos mais vulneráveis.
Representatividade e o peso da realidade periférica
Entre as novas gerações, o discurso da identidade ganha ainda mais força. Sabrina Pascoal, jovem aprendiz e moradora da região, vê na figura do presidente eleito alguém que compreende as dificuldades cotidianas de quem vive nas bordas da cidade. "Eu sou periférica, sou mulher. É como se ele olhasse mais para a minha situação do que o outro candidato", afirmou Sabrina. Sua fala ecoa uma percepção comum em Piraporinha: a de que as políticas públicas voltadas para educação profissional e inclusão social são os principais divisores de águas entre as propostas em disputa.
Contudo, o apoio massivo não significa uma adesão cega ou estritamente ideológica. Existe uma parcela significativa do eleitorado que votou de forma pragmática, movida por interesses específicos ou por rejeição ao campo adversário. É o caso de Marco Aurélio Queiroz, agente da Polícia Judicial. Mesmo declarando que não nutre simpatia pelo Partido dos Trabalhadores, ele optou por Lula devido a discordâncias fundamentais com as pautas do PL em relação ao funcionalismo público federal.
Voto estratégico e as demandas do funcionalismo
"Não gosto do PT, mas votei no Lula para não entrar o Flávio Bolsonaro", explicou Queiroz. Sua motivação reflete uma fatia do eleitorado que prioriza a estabilidade das carreiras públicas e a segurança jurídica. Para ele, a expectativa agora reside na revisão de reajustes salariais e, principalmente, em melhorias reais na segurança pública, uma das maiores preocupações de quem circula diariamente pelas periferias paulistanas.
Um bairro, diferentes perspectivas
Apesar da festa que tomou as ruas, Piraporinha não é um monobloco de pensamento. O motorista de aplicativo Wilson Soares representa a parcela que recebeu o resultado com ceticismo. Identificado com valores de direita, ele admite que a votação expressiva de Lula na região era esperada, mas manifesta preocupação com o rumo da economia brasileira. "Eu acho que serão mais quatro anos difíceis", desabafou Wilson, que preferiu o isolamento de sua casa ao burburinho das comemorações externas.
Essa dualidade entre a celebração festiva e a apreensão econômica é o que define o clima pós-eleitoral em grandes centros urbanos. Enquanto uns veem na vitória uma oportunidade de retomada de direitos e investimentos sociais, outros temem o impacto das políticas fiscais e a inflação no custo de vida. O desafio do novo governo será justamente dialogar com essas duas realidades que coabitam o mesmo território.
O que o futuro reserva para a Zona Sul
Com o encerramento do ciclo eleitoral, as atenções em Piraporinha se voltam para o cumprimento das promessas de campanha. A região, que historicamente sofre com gargalos no transporte público e na saúde primária, espera que o alinhamento político entre o governo federal e as demandas locais se traduza em melhorias tangíveis. O fenômeno de Piraporinha serve como um lembrete aos analistas políticos: a periferia de São Paulo é um ator político vibrante, consciente de seu peso nas urnas e cada vez mais exigente quanto aos resultados.
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Fonte: https://g1.globo.com