O Outubro Rosa é tradicionalmente conhecido por tingir monumentos de cor-de-rosa e incentivar mulheres a realizarem seus exames preventivos. No entanto, uma parcela silenciosa da população — os homens — também está no alvo do câncer de mama, muitas vezes sem saber que a doença pode afetá-los. Um alerta recente da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) acende uma luz vermelha: embora o câncer de mama masculino seja raro, representando cerca de 1% do total de casos, o diagnóstico em homens ocorre predominantemente em estágios avançados, o que compromete significativamente as chances de um tratamento menos invasivo e mais eficaz.
Dados extraídos dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC) do Instituto Nacional de Câncer (Inca) revelam uma realidade preocupante. Entre 2020 e 2023, foram registrados mais de 163 mil casos de câncer de mama no Brasil. Desse montante, 2.126 registros foram de pacientes do sexo masculino. O que mais chama a atenção dos especialistas não é apenas a ocorrência da doença, mas o momento em que esses homens chegam ao consultório médico. A falta de informação e o preconceito cultural fazem com que muitos ignorem os primeiros sinais, buscando ajuda apenas quando a patologia já se encontra em um estado de metástase ou crescimento avançado.
O contraste estatístico e a gravidade do diagnóstico
O estadiamento de um tumor é a classificação que define a extensão da doença no corpo, variando de 0 (carcinoma in situ) a IV (quando já há metástase em outros órgãos). De acordo com o levantamento da SBRT, a disparidade entre gêneros no diagnóstico inicial é evidente. Enquanto 5,45% das mulheres conseguem descobrir a doença no estágio I — fase inicial com alto índice de cura — apenas 3,41% dos homens têm a mesma sorte. Na outra ponta do espectro, o estágio IV (metástase) foi registrado em 29,95% dos homens, contra 26,42% das mulheres.
Se somarmos os estágios III e IV, que representam quadros mais graves e complexos, o índice chega a 62,29% entre o público masculino. Especialistas apontam que essa diferença não é meramente biológica, mas comportamental. Enquanto o público feminino é bombardeado por campanhas de conscientização e possui uma rotina de acompanhamento ginecológico mais estabelecida, os homens raramente examinam o próprio peito ou consideram que um pequeno caroço na região possa ser algo além de uma inflamação passageira ou resultado de um esforço físico.
Por que o câncer avança mais rápido no corpo masculino?
A anatomia masculina desempenha um papel crucial na rapidez com que a doença progride. Diferente das mulheres, que possuem um volume maior de tecido mamário, os homens têm uma quantidade mínima de glândulas. Isso faz com que o tumor, mesmo quando pequeno, esteja anatomicamente muito próximo da pele e dos músculos peitorais. Consequentemente, o câncer consegue invadir essas estruturas adjacentes com maior facilidade e em menos tempo.
A rádio-oncologista Denise Ferreira, diretora de comunicação da SBRT, explica que o desconhecimento é o principal inimigo. <i>“Muitos demoram a procurar atendimento ao perceber alterações na região. A presença de caroços, alterações no mamilo ou secreção, especialmente com sangue, deve ser investigada imediatamente”</i>, afirma a médica. Além disso, a baixa exposição ao estrogênio ao longo da vida e a ausência de uma rotina de rastreamento (como a mamografia de rotina para mulheres acima dos 50 anos) contribuem para que o tumor cresça de forma silenciosa.
Fatores de risco e a importância do histórico familiar
Embora a incidência seja baixa, certos grupos masculinos devem estar mais atentos. Mutação genética hereditária (especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2), obesidade, histórico familiar de câncer de mama em parentes de primeiro grau e alterações hormonais que aumentam os níveis de estrogênio no corpo masculino são fatores de risco documentados. O uso de esteroides anabolizantes e condições que afetam o fígado, como a cirrose, também podem desequilibrar a balança hormonal e elevar os riscos.
Para 2026-2028, o Inca estima que o Brasil terá 78.610 novos casos de câncer de mama por ano. Embora a vasta maioria ocorra em mulheres, a conscientização masculina é uma necessidade de saúde pública. Quando diagnosticado precocemente, a sobrevida do homem pode ultrapassar os 95%. No entanto, a taxa geral cai para cerca de 80% quando consideramos todos os estágios, evidenciando o impacto negativo do diagnóstico tardio.
Tratamento e perspectivas de cura
O protocolo de tratamento para homens segue linhas semelhantes às das mulheres: a cirurgia de remoção do tumor (mastectomia) é geralmente a primeira etapa, podendo ser acompanhada de quimioterapia, hormonioterapia ou radioterapia. A radioterapia, em particular, evoluiu muito nos últimos anos, permitindo um tratamento mais focado e com menor dano aos tecidos saudáveis do tórax, como o coração e os pulmões.
A mensagem central das autoridades de saúde neste período de conscientização é que o cuidado com o corpo não possui gênero. Quebrar o estigma de que o câncer de mama é uma 'doença feminina' é o primeiro passo para salvar vidas masculinas. O autoexame, embora simples, deve ser encarado com seriedade por qualquer pessoa que note anomalias na região peitoral.
Informação de qualidade é a melhor ferramenta para a prevenção e o cuidado com a saúde. No Impacto1 Jornal, mantemos o compromisso de trazer análises aprofundadas e dados atualizados sobre os temas que impactam a sua vida e a de sua família. Continue acompanhando nosso portal para estar sempre bem informado com seriedade e credibilidade.