PUBLICIDADE

Anúncio não encontrado.

Hackers sabotam sistemas de refrigeração e geram prejuízos milionários em supermercados da Europa

G1

O avanço da digitalização no setor varejista, que prometia eficiência e controle preciso de estoques, revelou uma face vulnerável e perigosa nesta semana. Uma série de ataques cibernéticos coordenados atingiu redes de supermercados em diversos países europeus, resultando na sabotagem direta de sistemas de refrigeração. O método utilizado pelos criminosos é tão inusitado quanto destrutivo: ao invadir os softwares de gestão térmica, os hackers elevaram a temperatura de freezers e geladeiras para até 50°C, transformando equipamentos de conservação em verdadeiras estufas e provocando a perda total de toneladas de alimentos perecíveis.

Os incidentes, registrados nesta segunda-feira (2), afetaram operações na Bélgica, Luxemburgo, Suécia e Estônia. A ofensiva digital não se limitou apenas ao prejuízo financeiro imediato causado pelo descarte de produtos; em algumas unidades francesas, o superaquecimento súbito dos compressores chegou a provocar princípios de incêndio, forçando a evacuação de lojas e mobilizando equipes de emergência. O cenário expõe a fragilidade da chamada Internet das Coisas (IoT) quando aplicada a infraestruturas críticas de abastecimento sem as devidas camadas de proteção.

O rastro da sabotagem na Bélgica e Luxemburgo

Na Bélgica e em Luxemburgo, o alvo principal foi a gigante do varejo Ahold Delhaize. Dezenas de unidades da rede enfrentaram o desligamento ou a inversão térmica de seus sistemas de congelados. Segundo Stephan Moelans, CEO da Sabcobel — empresa responsável pela manutenção tecnológica das lojas —, os invasores conseguiram acionar o modo de degelo dos evaporadores de forma remota. Em vez de manter a temperatura negativa necessária para carnes, laticínios e vegetais congelados, o sistema passou a emitir calor intenso, inutilizando o estoque em poucas horas.

Além da Delhaize, o Grupo Colruyt confirmou que cinco unidades da rede Spar na Bélgica também foram comprometidas. A rapidez com que o ataque se espalhou sugere que os criminosos exploraram uma vulnerabilidade comum em sistemas operacionais utilizados por fornecedores de tecnologia de refrigeração, permitindo um efeito cascata que atravessou fronteiras nacionais em questão de minutos.

Suécia: lojas fechadas e avisos à população

Na Suécia, a situação não foi diferente. Grandes redes como ICA e Coop relataram invasões durante a madrugada, período em que as lojas estão vazias e o monitoramento humano é reduzido. Na unidade ICA Baronen, em Estocolmo, funcionários que chegaram para o turno da manhã encontraram um cenário de desolação: o sistema de refrigeração indicava 50°C e o cheiro de alimentos estragados já tomava conta dos corredores. Cartazes foram fixados nas vitrines informando aos clientes que a loja permaneceria fechada até que a segurança dos alimentos fosse garantida.

John Billow, chefe do Centro Nacional de Cibersegurança da Suécia, emitiu um alerta contundente. Segundo ele, as autoridades já haviam identificado, nas semanas anteriores, um número considerável de equipamentos conectados a sistemas operacionais obsoletos e vulneráveis no país. A falta de atualizações de segurança e o uso de senhas padrão em controladores de temperatura facilitaram a entrada dos hackers, que agora utilizam o controle físico das lojas como arma de extorsão ou desestabilização econômica.

A transição perigosa entre o mecânico e o digital

Historicamente, os sistemas de refrigeração, aquecimento e alarmes de supermercados eram operados por componentes puramente mecânicos ou circuitos fechados. Com a necessidade de reduzir o consumo de energia e permitir o monitoramento remoto, essas máquinas passaram a ser integradas a redes de internet. Se por um lado essa mudança permitiu que um técnico ajuste a temperatura de uma loja a quilômetros de distância, por outro, abriu uma porta de entrada para cibercriminosos que, antes, focavam apenas no roubo de dados de cartões de crédito.

O ataque atual é visto por especialistas como uma evolução das táticas de ransomware. Ao atingir a integridade física dos produtos e o funcionamento das máquinas, os hackers exercem uma pressão muito maior sobre os empresários. O custo de repor toneladas de alimentos e consertar equipamentos danificados pelo calor excessivo pode superar, em muitos casos, o valor de resgates exigidos em ataques convencionais.

Repercussão e o futuro da segurança no varejo

Este não é um evento isolado. No mês passado, a França já havia servido de laboratório para essa modalidade de ataque, quando centenas de lojas enfrentaram problemas idênticos. A repetição do padrão em diferentes países sugere uma campanha coordenada, embora nenhum grupo tenha assumido a autoria oficial até o momento. O impacto social é imediato: o descarte massivo de alimentos em um período de inflação alta e preocupações com a sustentabilidade gera indignação pública e levanta debates sobre a responsabilidade das empresas em proteger a cadeia de suprimentos.

A resposta das autoridades europeias deve envolver novas regulamentações para o setor de IoT industrial. Empresas de tecnologia de refrigeração, como a estoniana Kitman Coldtech, que também viu seus clientes serem atacados, agora correm contra o tempo para instalar correções de segurança (patches) e isolar os sistemas de controle das redes públicas de internet. Para o consumidor, fica o alerta sobre a complexidade e a interconectividade do mundo moderno, onde um clique mal-intencionado pode afetar diretamente a comida que chega à mesa.

O monitoramento contínuo de ameaças cibernéticas tornou-se, portanto, uma questão de segurança alimentar. No Impacto1 Jornal, continuaremos acompanhando os desdobramentos dessa investigação e os impactos na economia global. Para manter-se informado sobre este e outros temas que moldam o nosso cotidiano, com profundidade e rigor jornalístico, acompanhe nossas atualizações diárias. A informação de qualidade é a sua melhor defesa em um mundo cada vez mais conectado.

Fonte: https://g1.globo.com

Leia mais

PUBLICIDADE