O bolso do consumidor campineiro voltou a sentir o peso da inflação dos alimentos de forma acentuada no último mês. Impulsionada por altas expressivas em itens indispensáveis como o tomate e a batata, o custo da cesta básica em Campinas (SP) registrou uma elevação de 5,99% em setembro, atingindo o patamar de R$ 882,86. O levantamento, realizado mensalmente pelo Observatório PUC-Campinas, acende um alerta para o orçamento doméstico, uma vez que o valor atual se aproxima perigosamente do recorde histórico da série, de R$ 902,12, registrado em junho deste ano.
A variação em relação ao mês de agosto, quando o conjunto de alimentos custava R$ 832,99, representa um acréscimo de quase 50 reais em apenas trinta dias. Quando olhamos para o retrovisor, o cenário é ainda mais preocupante: em um intervalo de 12 meses, a cesta básica encareceu R$ 108,49, o que representa uma alta acumulada de 14%. Esse avanço supera significativamente os índices inflacionários gerais, demonstrando que o custo de comer tem subido de forma desproporcional à renda média da população.
O clima como vilão do prato brasileiro
O grande protagonista da alta de setembro foi o tomate, que viu seu preço disparar impressionantes 57,57%. De acordo com o economista Pedro de Miranda Costa, coordenador da pesquisa, o fenômeno não é isolado e está diretamente ligado às instabilidades climáticas que afetaram o interior paulista e as regiões produtoras. O frio prolongado no início do ciclo atrasou a maturação dos frutos e, posteriormente, o excesso de chuvas dificultou o trabalho de colheita no campo, reduzindo drasticamente a oferta do produto nas gôndolas dos supermercados.
A batata seguiu uma trajetória semelhante, com uma alta de 30,02%. Assim como o tomate, o tubérculo é extremamente sensível ao excesso de umidade, que não apenas atrapalha a logística de retirada da terra, mas também compromete a qualidade e a durabilidade do produto. Além desses dois itens de hortifrúti, o arroz (5,92%), o óleo (2,98%), o pão francês (2,95%) e a carne (1,38%) também registraram variações positivas, contribuindo para o encarecimento geral.
Poder de compra e o impacto no salário mínimo
Um dos pontos mais críticos revelados pelo estudo da PUC-Campinas é o comprometimento da renda. Atualmente, o valor de R$ 882,86 representa 54,4% do salário mínimo líquido (considerando o valor de R$ 1.621,00). Na prática, isso significa que o trabalhador campineiro que recebe o piso nacional precisa trabalhar mais da metade do mês apenas para garantir a sua própria alimentação básica, sem considerar gastos com aluguel, energia, transporte e saúde.
A situação torna-se ainda mais complexa quando analisamos o cenário de uma família padrão, composta por dois adultos e duas crianças. Segundo a metodologia utilizada, que se baseia nas necessidades nutricionais de um trabalhador, uma família com essa configuração demandaria o equivalente a três cestas básicas mensais. Nesse caso, o gasto apenas com comida saltaria para R$ 2.648,59 — um valor que supera em muito o rendimento de boa parte das famílias da região metropolitana de Campinas.
Deflação em itens pontuais não compensa a alta
Apesar do cenário de alta, sete dos treze itens pesquisados apresentaram queda nos preços em setembro. O feijão teve uma redução de 5,14%, enquanto a banana registrou a maior queda do grupo, com recuo de 8,18%. Outros produtos como o leite (-2,09%), café (-2,52%) e açúcar (-1,02%) também ficaram ligeiramente mais baratos. No entanto, essas reduções foram insuficientes para neutralizar o peso do tomate e da batata no cálculo final, evidenciando como itens voláteis podem desequilibrar o índice rapidamente.
A herança de 1938 e a realidade atual
A cesta básica monitorada pelo Observatório segue os preceitos do Decreto-Lei nº 399 de 1938, que estabeleceu a lista de alimentos necessários para que um trabalhador adulto possa garantir sua subsistência e saúde. A lista inclui quantidades específicas de carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga. Embora os hábitos de consumo tenham evoluído em quase nove décadas, esses itens continuam sendo a base da pirâmide alimentar brasileira.
O monitoramento realizado em Campinas abrange 28 estabelecimentos comerciais distribuídos estrategicamente em bairros ao redor do centro, garantindo uma amostra fiel da realidade enfrentada pelo consumidor local. A metodologia, idêntica à do Dieese, permite comparar a situação da metrópole paulista com outras capitais do país, reforçando o papel de Campinas como um termômetro econômico relevante para o estado.
Para os próximos meses, o mercado mantém cautela. A dependência de fatores climáticos e o custo logístico seguem como variáveis determinantes. Com a aproximação das festas de fim de ano, período em que historicamente há uma pressão natural sobre os preços devido ao aumento da demanda, o cenário para o bolso do campineiro continua desafiador. Acompanhar as variações e buscar alternativas de substituição sazonal tornam-se estratégias essenciais de sobrevivência econômica.
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Fonte: https://g1.globo.com