A economia argentina atravessa um dos períodos mais desafiadores de sua história recente sob a administração de Javier Milei. O país registrou uma redução drástica no número de empregadores ativos, com a perda de 32.290 empresas desde que o líder libertário assumiu a Casa Rosada, no final de 2023. Os dados, extraídos de relatórios oficiais da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT), revelam uma contração de 6,3% na base empresarial argentina em menos de um ano de gestão, evidenciando o impacto direto das políticas de ajuste fiscal e da abertura comercial agressiva sobre o setor produtivo nacional.
O levantamento detalha que o número total de empregadores cadastrados despencou de 512.357 em novembro de 2023 para 480.067 em julho de 2024. Este recuo não é um evento isolado, mas faz parte de uma sequência negativa de 18 meses consecutivos de queda. Embora o governo argumente que a saída do cadastro não signifique obrigatoriamente a falência de todas essas unidades — já que uma empresa pode deixar de figurar na lista por perder seu último funcionário registrado ou por reorganizações burocráticas —, o indicador é um termômetro fidedigno da desidratação do mercado de trabalho formal e da capacidade de sobrevivência dos pequenos e médios negócios.
A 'tempestade perfeita' sobre as pequenas e médias empresas
O cenário de retração é alimentado por uma combinação de fatores que especialistas chamam de 'tempestade perfeita'. De um lado, o consumo interno desmoronou devido à perda do poder de compra das famílias e ao endividamento crescente. Segundo a Confederação Argentina da Média Empresa (CAME), o aumento vertiginoso nas tarifas de serviços públicos (gás, luz e água) drenou o orçamento doméstico, forçando os consumidores a priorizarem apenas o essencial e abandonarem o consumo de bens duráveis e serviços não vitais.
Do outro lado, as empresas enfrentam um aumento exponencial nos custos operacionais. Além das contas de energia, a carga tributária e a escassez de crédito com taxas de juros acessíveis tornam a manutenção das portas abertas uma tarefa quase impossível para as Pequenas e Médias Empresas (PMEs). Para a União Industrial Argentina (UIA), o setor manufatureiro é o que mais sofre, pois o faturamento em queda livre não é suficiente para cobrir despesas fixas que não param de subir sob a nova política econômica.
Importações e a crise na produção industrial
Um ponto central de crítica à gestão Milei é a estratégia de abertura comercial rápida em meio a uma recessão. Dados do Centro de Economia Política Argentina (CEPA) indicam que a entrada de produtos estrangeiros no país cresceu 34,7% no primeiro semestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2023. Enquanto as vitrines se enchem de itens importados, a produção industrial local encolheu 12%, incapaz de competir com a estrutura de custos internacional.
Essa disparidade tem gerado um processo de desindustrialização que preocupa sindicatos e economistas. Enquanto setores extrativistas, como a mineração, apresentam crescimento impulsionado por investimentos estrangeiros e foco na exportação, o comércio varejista e a indústria têxtil e metalúrgica definham. O resultado é um mercado de trabalho cada vez mais fragmentado, onde postos formais são substituídos por ocupações precárias ou pela total inatividade de milhares de trabalhadores.
Perspectivas e o custo social do ajuste
A política de 'déficit zero' adotada por Javier Milei conseguiu reduzir a inflação mensal em comparação aos picos hiperinflacionários do início do ano, mas o custo social tem sido a recessão profunda. A redução de 3.485 postos de trabalho formais apenas no mês de julho reforça a tese de que o equilíbrio fiscal está sendo alcançado à custa do fechamento de empresas e do desemprego. A grande questão para os próximos meses é se a economia argentina terá fôlego para uma recuperação em 'V' ou se a erosão da base empresarial deixará cicatrizes estruturais permanentes.
A longo prazo, a perda de mais de 32 mil empregadores representa uma diminuição na capacidade de inovação e distribuição de renda no interior do país. Com menos empresas competindo e empregando, o Estado enfrenta o desafio de manter a arrecadação e a paz social. O governo, por sua vez, mantém a aposta de que a estabilização macroeconômica atrairá novos investimentos que compensarão as perdas atuais, embora o setor produtivo local peça medidas urgentes de socorro para não desaparecer completamente.
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Fonte: https://g1.globo.com