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A hegemonia política em São Paulo: por que a esquerda nunca governou o estado desde a redemocratização

G1

Desde que os brasileiros retomaram o direito de escolher seus governadores pelo voto direto em 1982, o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, tornou-se uma espécie de fortaleza impenetrável para os partidos de esquerda. Ao longo de mais de quatro décadas, o estado que move a economia nacional consolidou um perfil político marcado pela predominância do centro e da direita, resistindo a candidaturas progressistas mesmo quando estas alcançavam o topo do Poder Executivo federal. Esse fenômeno não é apenas uma coincidência eleitoral, mas o resultado de uma construção histórica e organizacional profunda.

A trajetória política paulista no período democrático divide-se, essencialmente, em três grandes blocos: a transição capitaneada pelo antigo PMDB, a longa hegemonia do PSDB e a recente ascensão do Republicanos com Tarcísio de Freitas. Em todas essas etapas, figuras icônicas da política nacional tentaram, sem sucesso, levar a esquerda ao comando do estado mais populoso do país, esbarrando em um eleitorado que, historicamente, privilegia a continuidade administrativa e a estabilidade econômica regional.

O marco de 1982 e a herança do PMDB

A primeira eleição direta para governador após o regime militar, em 1982, foi um momento de catarse democrática. Naquele ano, Franco Montoro, do PMDB, saiu vitorioso. Embora o PMDB fosse a grande frente de oposição à ditadura e abrigasse diversas correntes, ele se consolidou como uma legenda de centro. Montoro foi sucedido por Orestes Quércia (1986) e Luiz Antônio Fleury Filho (1990), mantendo o controle estadual nas mãos do partido por 12 anos.

Durante esse período, a esquerda já tentava marcar território. O Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em São Paulo, buscava viabilizar nomes como Lula e José Genoino, mas o interior paulista — que detém um peso eleitoral decisivo — demonstrava uma forte resistência ao discurso sindicalista e transformador da época. O PMDB de então funcionava como um amortecedor, oferecendo uma transição segura que dialogava tanto com a capital quanto com as forças conservadoras do agronegócio e da indústria.

A era do 'tucanato' e a máquina organizacional

Em 1994, com a eleição de Mário Covas, iniciou-se o período mais longo de domínio de um único partido em um estado brasileiro: a era tucana. Por 28 anos, o PSDB venceu todas as disputas para o governo de São Paulo. De Covas a João Doria, passando por Geraldo Alckmin e José Serra, o partido construiu uma identidade que se fundia à própria gestão pública do estado.

Um estudo detalhado do cientista político Henrique Curi, da FESP-SP e Unicamp, aponta que a longevidade do PSDB não se deu apenas por afinidade ideológica do eleitor, mas por uma engenharia institucional sofisticada. Enquanto outros partidos focavam em grandes nomes nacionais, os tucanos investiram na capilaridade. A Executiva estadual monitorava cada um dos 645 municípios paulistas, estabelecendo coordenadorias regionais que garantiam que as demandas locais chegassem ao Palácio dos Bandeirantes.

A interiorização como estratégia de poder

O diferencial competitivo do PSDB estava na substituição de 'comissões provisórias' por diretórios municipais permanentes. Isso criava uma rede de lideranças locais — prefeitos e vereadores — que tinham interesse direto na manutenção do partido no governo estadual para garantir convênios e obras. Para a esquerda, que muitas vezes concentrava suas forças no cinturão metropolitano e nos movimentos sociais da capital, romper essa barreira do interior sempre foi o maior desafio logístico e político.

A ruptura de 2022: o fim de um ciclo, mas não da tendência

A eleição de 2022 representou um divisor de águas. Pela primeira vez em quase três décadas, o PSDB não conseguiu chegar ao segundo turno, terminando com a hegemonia tucana. No entanto, o beneficiário dessa mudança não foi a esquerda, mas sim uma nova força de direita representada por Tarcísio de Freitas (Republicanos). Apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, Tarcísio conseguiu unir o voto conservador do interior com a insatisfação de parte do eleitorado da capital com o sistema político tradicional.

A derrota de Fernando Haddad (PT) no segundo turno daquele ano reforçou a tese de que existe um 'teto' para o campo progressista em São Paulo. Mesmo com o apoio de Lula, que venceu a eleição presidencial, a candidatura de esquerda não conseguiu superar a rejeição histórica em polos regionais importantes como Ribeirão Preto, São José dos Campos e a região de Campinas.

Por que o cenário paulista importa para o Brasil?

Entender por que a esquerda nunca governou São Paulo é fundamental para compreender a dinâmica do poder no Brasil. O estado funciona como o principal laboratório de políticas públicas e como o maior orçamento do país depois da União. A manutenção de um perfil conservador ou de centro-direita em São Paulo atua como um contrapeso constante aos governos federais progressistas, influenciando desde o debate sobre segurança pública até as diretrizes de privatizações e gestão fiscal.

Além disso, a resiliência desse padrão eleitoral sugere que o eleitor paulista valoriza a percepção de eficiência administrativa e a manutenção de uma certa 'ordem' institucional, muitas vezes vista como marca dos governos que passaram pelo Palácio dos Bandeirantes desde 1982. Para a esquerda, o desafio permanece sendo a construção de uma narrativa que consiga penetrar nas camadas médias e no interior, desmistificando resistências que já duram mais de quarenta anos.

Acompanhar as movimentações políticas e os bastidores do poder é essencial para entender os rumos do nosso estado e do país. No Impacto1 Jornal, mantemos o compromisso de entregar análises profundas e informações checadas, ajudando você a formar sua própria opinião sobre os fatos que moldam a nossa sociedade. Continue conosco para mais reportagens exclusivas e o melhor do jornalismo contextualizado.

Fonte: https://g1.globo.com

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